O racismo e eu

SEBASTIÃO BUGALHO   SOL   22.07.17
Nunca conheci os meus avós. Oiço histórias, as mesmas, com o mesmo carinho, desde pequeno. Viveram e serviram Portugal no estrangeiro. Quando o meu pai nasceu em Marrocos, foi para uma escola pública. Em respeito aos colegas, não comia nem bebia à frente deles no Ramadão. 
Esse reconhecimento da diversidade foi-me passado por ele, pela minha avó de ascendência indiana, pela minha tia de ascendência japonesa; por uma família cuja normalidade era a diferença. 
Ao longo da juventude, os choques da realidade com esse meu normal sucederam-se. A ideia de o racismo ser uma verdade adormecida, mais que evidente, é gigantesca. 
Olhares de lado em restaurantes que nos obrigavam a mudar de mesa, perguntarem se quem me levava à escola «era o motorista» por ser afrodescendente, colegas a caminho da faculdade de medicina que «deixariam os pretos morrer na sala de operações». 
Desde que escrevo opinião publicamente que recusei responder a acusações de racismo com postais de natal. Vivi-o demasiado de perto para usar a família como arma política. Não é isso que este texto pretende.
Quando entrevistei o André Ventura, faz hoje uma semana, não esperava que a conversa provocasse a polémica nacional que provocou. Não esperava, sobretudo, toda a politização e tentativa de aproveitamento que se sucedeu. 
Podemos discordar de Ventura, ignorar a reação de apoio social que obteve, advertir para o perigo de generalizações, pedir-lhe dados concretos ou até ir a Loures ver com os próprios olhos. Mas não podemos deixar que a paisagem política utilize uma polémica para proveito próprio e não para defender o que seja. E foi isso que aconteceu, da direita à esquerda.
O Partido Socialista convocou uma conferência de imprensa, dizendo que se Passos Coelho não retirasse o apoio ao candidato estaria a ser «cúmplice» de racismo. O Bloco de Esquerda também desafiou o líder do PSD a pronunciar-se sobre o caso e lembrou que «há jovens de famílias ricas em Cascais que organizam gangues». 
Pessoalmente, não sei o que é mais cómico. Acusar Passos de racismo - e aí está alguém que também não usa a família como arma política -, precisar disso  para fazer publicidade a candidatos, comparar minorias a «famílias ricas» como se estivéssemos na revolução de Outubro ou o Bloco apresentar queixa na Ordem dos Advogados quando André Ventura nem advogado é. 
O foco, viu-se, era trazer Passos Coelho para a lama; não era defender a comunidade cigana. Mas a brigada moral, já se sabe, tudo pode. Ir a marchas LGBT, mas defender a religião muçulmana que é contra a homossexualidade; gritar pelo feminismo e agora vir defender uma etnia que promove o casamento de raparigas menores de idade.
Desta vez, o ridículo não se esgotou aí. 
Teresa Leal Coelho precisou que um candidato do seu partido criasse polémica para emitir um primeiro comunicado à imprensa. A candidata do PSD a Lisboa repudiou as afirmações de André Ventura, dizendo que a «diversidade e a multiculturalidade» devem ser «celebradas». 
A ironia é Teresa fazer campanha com cartazes que pedem uma Lisboa «que não expulse os seus» na semana em que acusa um candidato de não ‘celebrar’ a diversidade. 
É mesmo assim que queremos discutir o racismo?
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